segunda-feira, 23 de março de 2015




A BELA E A FERA



O Casamento da Dona Baratinha

Conto popular recontado por Ana Maria Machado - Dona Baratinha

Dona Baratinha

Era uma vez uma baratinha que estava varrendo a casa e encontrou uma moeda.
Ficou toda animada, achando que estava rica e já podia casar.
Guardou o dinheiro com todo cuidado dentro de uma caixinha, tomou banho, se arrumou toda, botou uma fita no cabelo e foi para a janela procurar um noivo.
Toda vez que passava alguém, ela perguntava:
-Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O primeiro bicho que respondeu foi um boi, que falou com uma voz bem grossa:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O boi respondeu?
-MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o boi foi embora.
Depois veio passando um cavalo.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O cavalo respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O cavalo respondeu:
-RIRRIRRIRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o cavalo foi embora.
Depois veio passando um cachorro.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O cachorro respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O cachorro respondeu:
-AU, AU, AU, AU, AU, AU, AU, AU!!!!!!!!!!!!!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o cachorro foi embora.
Depois veio passando um bode.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O bode respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O bode respondeu:
-BÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o bode foi embora.
Depois veio passando um carneiro.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O carneiro respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O carneiro respondeu:
-BÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o carneiro foi embora.
Depois veio passando um gato.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O gato respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O gato respondeu:
-MIAAAAAAAAAAAAAAU!!!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o gato foi embora.
Depois veio passando um galo.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O galo respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O galo respondeu:
-COCOROCÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ!!!!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o galo foi embora.
Depois veio passando um papagaio.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O papagaio respondeu:
-EU QUERO!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O papagaio respondeu:
-CURRUPACO PAPACO!!!!!!
Ela levou um susto:
-Ai, não! É muito barulho, não me deixa dormir. Sai fora!
E o papagaio foi embora.
Dona Baratinha já estava quase desistindo, quando veio passando um ratinho.
Dona Baratinha perguntou:
--Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
O ratinho respondeu:
-Eu quero!!!!!
Dona Baratinha perguntou:
-E como é que você faz de noite?
O ratinho respondeu:
-Cuim, cuim, cuim!...
Ela nem conseguiu ouvir direito, teve que pedir a ele para repetir umas duas vezes. Então concordou:
E começaram os preparativos para a grande festa do casamento. Mandaram convites para tudo o quanto era bicho manso, encomendaram flores de tudo quanto era perfume e cor, contrataram abelhas para fazer tudo quanto era doce gostoso, e mais um bolo de quatro andares, todo branquinho com uns bonecos no alto representando os noivos.
Mas o ratinho não estava satisfeito. Ficava toda hora dizendo:
-Só doce e bolo não serve pra nada. Casamento tem que ter feijoada.
Tanto falou que convenceu a noiva, e ela tratou de descobrir as mais fantásticas cozinheiras para prepararem uma feijoada maravilhosa.
E elas vieram.
Trouxeram sacos de feijão novo, colhido poucos dias antes, bem macio. Deixaram as carnes de molho desde a véspera, para não ficarem muito salgadas. Escolheram laranjas bem doces e levantaram  bem cedo no dia do casamento para colher couve fresquinha na horta.
No dia desde a madrugada, o feijão cozinhava no caldeirão, no meio de muito toucinho, paio, linguiça, lombinho, carne seca e mais uma porção de carnes defumadas e salgadas.
Na cozinha, todo mundo estava ocupado com os acompanhamentos, fazendo arroz e farofa, picando laranja, cortando couve em tirinhas...
E o cheiro daquela feijoada deliciosa se espalhava por toda a vizinhança.
Na hora do casamento, Dona Baratinha pegou o buquê, ajeitou o véu na cabeça, deu o braço ao Seu Besouro, que era o padrinho, se encarapitou com ele no alto de um Caramujo todo enfeitado e foi para a igreja.
Quando chegou lá e ia entrar, Dona Joaninha, toda elegante em seu vestido vermelho de pintinhas pretas, veio correndo avisar:
-Não entra ainda não, que o noivo está atrasado!
Eles deram uma voltinha na praça, devagarzinho, a passo de Caramujo.
Quando chegaram de novo na igreja, antes de saltarem do alto da concha, lá veio a Dona Esperança, toda elegante em seu vestido verde:
-É melhor não entrar, para não ficar esperando no altar...
Muito sem graça, Dona Baratinha deu outra volta na praça.
Na hora em que aconteceu pela terceira vez, Dona Baratinha ficou furiosa:
-Mas quem esse ratinho pensa que é para me fazer esperar dessa maneira? Será que ele acha que casamento é brincadeira?
E resolveu:
-Assim não caso mais.
Virou as costas e mandou o caramujo voltar para casa, deixando Seu Besouro encarregado de pedir desculpas aos convidados.
Já estava quase chegando a casa, quando encontrou com o bando de cozinheiras que vinha correndo pela rua, todas falando ao mesmo tempo, gritando e chorando:
-Ai!Aconteceu uma tragédia, ocorreu uma desgraça!
-Uma coisa muito triste, tristeza que nunca passa!
Era tanta confusão que Dona Baratinha custou a entender o que elas diziam
Aos poucos, foram se acalmando e contando.
O guloso do ratinho ia para a igreja quando sentiu aquele cheirinho delicioso da feijoada cozinhando resolveu ver de perto. Foi até a cozinha, levantou a tampa da panela e o cheiro foi mais forte ainda. Com todo o cuidado, subiu na alça do caldeirão, passou para a borda e...
SPLASH!
Perdeu o equilíbrio e caiu lá dentro!
E aí não teve mais jeito, foi uma perda danada. Perdeu-se o noivo e a feijoada.Por isso é que agora as cozinheiras repetiam:
-O Seu Ratinho está no meio do toucinho...
-O Seu Ratinho está com o feijão no caldeirão...
Dona Baratinha primeiro caiu no choro. Que tristeza, ficar viúva antes de casa!
Depois, pouco a pouco, entre um soluço e outro, foi tirando o vestido de noiva, botando uma roupa mais confortável e ficou pensando:
-Coitado do ratinho! Mas para mim foi uma sorte. Não podia dar certo um casamento com um noivo que gosta mais de feijão do que de mim.Melhor eu ficar sozinha e gastar o meu dinheiro pra me divertir.
E assim fez.






 

Os músicos de Bremen

Um conto de fadas dos Irmãos Grimm
Era uma vez um burro que tinha trabalhado durante muitos anos para o seu dono, acartando sacos de milho. Com o tempo, foi perdendo as forças e acabou por não conseguir trabalhar como antigamente. Então, o dono resolveu cortar-lhe a ração. Vendo que dessa decisão não viria nada de bom para si, o Burro fugiu e pôs-se a caminho da cidade de Bremen.
- Em Bremen posso tornar-me músico – pensava ele enquanto caminhava.
Ainda mal tinha começado a jornada quando encontrou, à beira da estrada, um cão de caça que respirava sem fôlego como se tivesse acabado de correr muito.
- Por que respiras assim com tanta dificuldade? – Perguntou o Burro.
- Ah, sabes lá! Como estou velho e cada dia que passa me sinto mais fraco, já não posso caçar. O meu dono queria matar-me, mas eu fugi a sete pés. Mas, agora, o que vai ser de mim? – Queixou-se o Cão.
- Por que não vens comigo para Bremen? – Perguntou o Burro. - Vou tornar-me músico da cidade e tocar alaúde. Tu podias tocar tambor…
O Cão concordou e meteram-se ambos ao caminho.
Andaram algum tempo até que encontraram um Gato que estava muito, muito triste.
- O que te aconteceu, meu caça-ratos? – Perguntou o Burro.
- Quem é que se pode sentir feliz quando tem a vida em risco? – Queixou-se o Gato –
Como estou velho e prefiro enroscar-me à lareira em vez de caçar ratos como antigamente, a minha dona quis afogar-me e eu fugi. Mas, agora, o que será de mim?
- Vem connosco para Bremen – convidou o Burro. – Podes ser um músico como nós e tocar nos concertos nocturnos.
O Gato concordou e foi com eles.
Pelo caminho passaram por uma quinta e viram um Galo empoleirado na cancela.
Cantava a plenos pulmões.
- Por que te esganiças tanto? – Quis saber o Burro.
- Amanhã é Domingo - explicou o Galo - e a minha dona tem convidados. Mandou a cozinheira cortar-me o pescoço logo à noite e meter-me na panela. Por isso, canto enquanto posso.
- É melhor vires connosco, Galo vaidoso - convidou o Burro - tens uma bela voz e juntos faremos um belo quarteto.
O Galo concordou e partiu com os outros.
Como não podiam chegar a Bremen nesse dia, resolveram passar a noite numa floresta.
O Burro e o Cão deitaram-se debaixo de uma árvore e o Gato e o Galo aninharam-se nos seus ramos. O Galo escolheu um dos ramos do topo da árvore porque aí se sentia mais seguro. Antes de adormecer, olhou em volta e viu ao longe uma luz a brilhar na escuridão. Chamou os colegas e disse-lhes que, naquela direcção, havia com certeza uma casa.
- Vamos até lá – propôs o Burro. – Aqui não estamos lá muito bem instalados.
Todos concordaram e puseram-se a caminho. Acabaram por chegar a uma velha casa de onde saía uma luz muito viva.
Como o Burro era o mais alto, foi ele quem espreitou primeiro.
- O que vês? – Perguntou o Cão.
- Vejo uma mesa repleta de iguarias e quatro salteadores que se estão a banquetear à farta – respondeu o Burro.
- Essa comida é que vinha mesmo a calhar – disse o Galo.
- Ah, se ao menos pudéssemos lá entrar… - acrescentou o Burro, cheio de fome.
Conversaram durante algum tempo e, por fim, os quatro amigos tiveram uma ideia para expulsar os salteadores.
O Burro apoiou as patas dianteiras no parapeito da janela, o Cão saltou para cima dele, o Gato saltou para cima do Cão e o Galo voou para cima do Gato. Depois, começaram a fazer barulho, cada um à sua maneira: o Burro zurrou, o Cão ladrou, o Gato miou e o Galo cantou. Enquanto faziam este concerto, saltaram através da janela, partindo os vidros em mil bocados. Os salteadores pensaram que se tratava de um fantasma horrível
e fugiram a sete pés, rumo à floresta.
Muito satisfeitos, os quatro amigos sentaram-se à mesa e comeram tranquilamente até se fartarem. Depois, apagaram as velas e prepararam-se para dormir. O Burro deitou-se num fardo de palha que havia no pátio, o cão deitou-se atrás da porta das traseiras, o Gato enroscou-se junto das brasas da lareira e o Galo empoleirou-se numa das traves do tecto da casa. Como estavam muito cansados adormeceram num instante.
Por volta da meia-noite os salteadores voltaram. Estava tudo às escuras e não se ouvia barulho nenhum.
- Não nos devíamos ter assustado tanto – disse o chefe.
E mandou um dos seus homens à frente para examinar a casa.
O bandido entrou e dirigiu-se à lareira para acender uma vela. Os olhos do Gato luziam no escuro e o bandido pensou que eram duas brasas. Aproximou um fósforo do focinho do Gato para o acender. O Gato não gostou da brincadeira e saltou-lhe para a cara, arranhando-a muito, enquanto miava e soprava. O bandido ficou aterrorizado! Quis fugir pela porta das traseiras, mas o Cão atirou-se a ele e ferrou-lhe uma valente dentada na perna. Cada vez mais aterrorizado, o homem lançou-se a correr pelo pátio, passando perto do Burro que lhe deu dois valentes coices. Nisto, o Galo acordou em sobressalto e pôs-se a cantar:
- Có-có-ró-có-có! Có-có-ró-có-có!
O bandido fugiu o mais depressa que pode. Quando chegou perto dos outros, gritou apavorado:
- Estamos perdidos! Está uma bruxa horrorosa sentada à lareira. Cuspiu-me e arranhoume a cara com as suas unhas enormes. Junto à porta está um homem que me esfaqueou a perna. No pátio está um monstro que me bateu com um cacete. Em cima do telhado está o chefe deles todos que gritou: "Corre senão comes! Corre senão comes!" Foi o que fiz, para não apanhar mais.
Os salteadores nunca mais se atreveram a voltar àquela casa.
Quanto aos quatro músicos de Bremen, sentiram-se tão bem por lá que resolveram nunca mais sair… e, quanto a mim, ainda lá devem estar!

Rapunzel

Um conto de fadas dos Irmãos Grimm

Era uma vez um casal que há muito tempo desejava inutilmente ter um filho. Os anos se passavam, e seu sonho não se realizava. Afinal, um belo dia, a mulher percebeu que Deus ouvira suas preces. Ela ia ter uma criança!
Por uma janelinha que havia na parte dos fundos da casa deles, era possível ver, no quintal vizinho, um magnífico jardim cheio das mais lindas flores e das mais viçosas hortaliças. Mas em torno de tudo se erguia um muro altíssimo, que ninguém se atrevia a escalar. Afinal, era a propriedade de uma feiticeira muito temida e poderosa.
Um dia, espiando pela janelinha, a mulher se admirou ao ver um canteiro cheio dos mais belos pés de rabanete que jamais imaginara. As folhas eram tão verdes e fresquinhas que abriram seu apetite. E ela sentiu um enorme desejo de provar os rabanetes.
A cada dia seu desejo aumentava mais. Mas ela sabia que não havia jeito de conseguir o que queria e por isso foi ficando triste, abatida e com um aspecto doentio, até que um dia o marido se assustou e perguntou:
- O que está acontecendo contigo, querida?
- Ah! - respondeu ela. - Se não comer um rabanete do jardim da feiticeira, vou morrer logo, logo!
O marido, que a amava muito, pensou: "Não posso deixar minha mulher morrer… Tenho que conseguir esses rabanetes, custe o que custar!"
Ao anoitecer, ele encostou uma escada no muro, pulou para o quintal vizinho, arrancou apressadamente um punhado de rabanetes e levou para a mulher. Mais que depressa, ela preparou uma salada que comeu imediatamente, deliciada. Ela achou o sabor da salada tão bom, mas tão bom, que no dia seguinte seu desejo de comer rabanetes ficou ainda mais forte. Para sossegá-la, o marido prometeu-lhe que iria buscar mais um pouco.
Quando a noite chegou, pulou novamente o muro mas, mal pisou no chão do outro lado, levou um tremendo susto: de pé, diante dele, estava a feiticeira.
- Como se atreve a entrar no meu quintal como um ladrão, para roubar meus rabanetes? - perguntou ela com os olhos chispando de raiva. - Vai ver só o que te espera!
- Oh! Tenha piedade! - implorou o homem. - Só fiz isso porque fui obrigado! Minha mulher viu seus rabanetes pela nossa janela e sentiu tanta vontade de comê-los, mas tanta vontade, que na certa morrerá se eu não levar alguns!
A feiticeira se acalmou e disse:
- Se é assim como diz, deixo você levar quantos rabanetes quiser, mas com uma condição: irá me dar a criança que sua mulher vai ter. Cuidarei dela como se fosse sua própria mãe, e nada lhe faltará.
O homem estava tão apavorado, que concordou. Pouco tempo depois, o bebê nasceu. Era uma menina. A feiticeira surgiu no mesmo instante, deu à criança o nome de Rapunzel e levou-a embora.
Rapunzel cresceu e se tomou a mais linda criança sob o sol. Quando fez doze anos, a feiticeira trancou-a no alto de uma torre, no meio da floresta.
A torre não possuía nem escada, nem porta: apenas uma janelinha, no lugar mais alto. Quando a velha desejava entrar, ficava embaixo da janela e gritava:
- Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças!
Rapunzel tinha magníficos cabelos compridos, finos como fios de ouro. Quando ouvia o chamado da velha, abria a janela, desenrolava as tranças e jogava-as para fora. As tranças caíam vinte metros abaixo, e por elas a feiticeira subia.
Alguns anos depois, o filho do rei estava cavalgando pela floresta e passou perto da torre. Ouviu um canto tão bonito que parou, encantado.
Rapunzel, para espantar a solidão, cantava para si mesma com sua doce voz.
Imediatamente o príncipe quis subir, procurou uma porta por toda parte, mas não encontrou. Inconformado, voltou para casa. Mas o maravilhoso canto tocara seu coração de tal maneira que ele começou a ir para a floresta todos os dias, querendo ouvi-lo outra vez.
Em uma dessas vezes, o príncipe estava descansando atrás de uma árvore e viu a feiticeira aproximar-se da torre e gritar: "Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças!." E viu quando a feiticeira subiu pelas tranças.
"É essa a escada pela qual se sobe?," pensou o príncipe. "Pois eu vou tentar a sorte…."
No dia seguinte, quando escureceu, ele se aproximou da torre e, bem embaixo da janelinha, gritou:
- Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças!
As tranças caíram pela janela abaixo, e ele subiu.
Rapunzel ficou muito assustada ao vê-lo entrar, pois jamais tinha visto um homem.
Mas o príncipe falou-lhe com muita doçura e contou como seu coração ficara transtornado desde que a ouvira cantar, explicando que não teria sossego enquanto não a conhecesse.
Rapunzel foi se acalmando, e quando o príncipe lhe perguntou se o aceitava como marido, reparou que ele era jovem e belo, e pensou: "Ele é mil vezes preferível à velha senhora…." E, pondo a mão dela sobre a dele, respondeu:
- Sim! Eu quero ir com você! Mas não sei como descer… Sempre que vier me ver, traga uma meada de seda. Com ela vou trançar uma escada e, quando ficar pronta, eu desço, e você me leva no seu cavalo.
Combinaram que ele sempre viria ao cair da noite, porque a velha costumava vir durante o dia. Assim foi, e a feiticeira de nada desconfiava até que um dia Rapunzel, sem querer, perguntou a ela:
- Diga-me, senhora, como é que lhe custa tanto subir, enquanto o jovem filho do rei chega aqui num instantinho?
- Ah, menina ruim! - gritou a feiticeira. - Pensei que tinha isolado você do mundo, e você me engana!
Na sua fúria, agarrou Rapunzel pelo cabelos e esbofeteou-a. Depois, com a outra mão, pegou uma tesoura e tec, tec! cortou as belas tranças, largando-as no chão.
Não contente, a malvada levou a pobre menina para um deserto e abandonou-a ali, para que sofresse e passasse todo tipo de privação.
Na tarde do mesmo dia em que Rapunzel foi expulsa, a feiticeira prendeu as longas tranças num gancho da janela e ficou esperando. Quando o príncipe veio e chamou: "Rapunzel! Rapunzel! Joga abaixo tuas tranças!," ela deixou as tranças caírem para fora e ficou esperando.
Ao entrar, o pobre rapaz não encontrou sua querida Rapunzel, mas sim a terrível feiticeira. Com um olhar chamejante de ódio, ela gritou zombeteira:
- Ah, ah! Você veio buscar sua amada? Pois a linda avezinha não está mais no ninho, nem canta mais! O gato apanhou-a, levou-a, e agora vai arranhar os seus olhos! Nunca mais você verá Rapunzel! Ela está perdida para você!
Ao ouvir isso, o príncipe ficou fora de si e, em seu desespero, se atirou pela janela. O jovem não morreu, mas caiu sobre espinhos que furaram seus olhos e ele ficou cego.
Desesperado, ficou perambulando pela floresta, alimentando-se apenas de frutos e raízes, sem fazer outra coisa que se lamentar e chorar a perda da amada.
Passaram-se os anos. Um dia, por acaso, o príncipe chegou ao deserto no qual Rapunzel vivia, na maior tristeza, com seus filhos gêmeos, um menino e uma menina, que haviam nascido ali.
Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, o príncipe caminhou na direção de Rapunzel. Assim que chegou perto, ela logo o reconheceu e se atirou em seus braços, a chorar.
Duas das lágrimas da moça caíram nos olhos dele e, no mesmo instante, o príncipe recuperou a visão e ficou enxergando tão bem quanto antes.
Então, levou Rapunzel e as crianças para seu reino, onde foram recebidos com grande alegria. Ali viveram felizes e contentes.

Boa noite colegas.... Tenho um modelo bem legal da História da Arara Cantora! Vamos fazer em eva?